Cálice

Uma ode à cultura, não, não sou. Nem sou o poeta, nem o compositor, nem o escritor, nem o pedreiro, que canta o dia inteiro a canção que o rádio cansado canta na construção ao lado. Não quero fazer rimas, ou métricas, ou poesia, ou prosa sequer. Não quero dissertar, nem narrar, nem da metalinguagem usar. Não quero me lembrar das regras, dos acentos, dos contos de machado ou das aulas de redação. Não quero me lembrar da literatura clássica, ou dos trovadores e nem das canções de amigo. Deixem me livre para escrever o que quiser, a hora que quiser, do jeito que quiser, sem contar pra professora de gramática que eu esqueci a crase, o parágrafo, os dois dedinhos e o travessão. Escrever acalma a alma, e os dedos se tornam o instrumento daquilo que de mais profundo temos em nós. Não quero decassílabos, dissílabos, ditongos, tritongos ou hiatos, nem quero me lembrar do sujeito, do predicado, tampouco do objeto, seja direto, indireto ou indeciso. Só quero escrever, com medo de esquecer que um dia já fui estrela, mas hoje sou luar.

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